sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Belo Horizonte


Por ocasião do aniversário de 111 anos de Belo Horizonte, cidade fundada em 12 de dezembro de 1897, uma homenagem do poeta a sua terra natal.

Minha pátria - Marcelo Mourão Motta Grossi

Minha pátria também não é a língua portuguesa
nem a russa, nem a inglesa

Nenhuma língua é minha pátria

Minha pátria é a terra da minha infância
e a terra misturada a minério
que encaroça minhas veias
à medida que mineradoras aleijam a Serra do Curral
E o céu debruçado sobre as montanhas de Belo Horizonte
olhando as pernas bonitas das moças
que sobem/descem morros
de asfalto, de paralelepípedos, de terra
e atravessam pinguelas sobre córregos imundos
porque não têm dinheiro para a passagem de ônibus

Minha pátria é cada nome que dá nome a cada rua
e a cada bairro onde, sob a subjetividade objetivada
e a objetividade subjetivada,
quase se fundem e se confundem na língua das pessoas,
nome a nome, um a um

Minha pátria é o caminhão do lixo e os lixeiros
e os meninos suburbanos que atacavam a pedradas
invasores quase imaginários
bairro contra bairro no meio da rua
e hoje, homens de família, cuidam dos filhos
das mulheres e das contas do mês

Minha pátria é o velho louco que gritava meu nome
e aquela outra louca, a Godeliva, filha do dono do cortiço em que [ morávamos
e que espreitava-nos, mamãe e eu, no barraco onde vivíamos
nossa vida boa: sem geladeira, sem televisão

Minha pátria é minha terra, não minha língua
Minha língua é minha reflexão

Com ela transmuto esses tempos de fezes em templos de fé

Foto: Emmanuel Pinheiro

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Pinochet foi pro inferno


Há 60 anos, no dia 10 de dezembro de 1948, foi promulgada em Paris a Declaração Universal dos Direitos Humanos, peremptoriamente violada desde então - seja pelo arbítrio do Estado ou com sua conivência, seja pela população de um Estado-Nação ou parte dela.

Há quase 40 anos, no dia 13 de dezembro de 1968, foi outorgado o Ato Institucional Nº5 (AI-5), um exemplo sórdido e irrefutável de violação sistemática dos direitos humanos no Brasil. Não há o que se comemorar, obviamente. Talvez, apenas as "viúvas" da Ditadura Militar e suas crias: bestas-feras que insistem em fazer a "carroça" da História andar em marcha-ré.


Há quase 20 anos, no dia 22 de dezembro de 1988, assassinaram Chico Mendes, seringueiro e líder sindical desde os enfrentamentos que opuseram "nativos" e "paulistas" nos seringais do Acre, na década de 1970. À época, Chico Mendes foi indiciado pela Lei de Segurança Nacional. A defesa da floresta não era considerada estratégica pelos militares, que estimulavam a ocupação e a exploração econômica da Amazônia, sem qualquer planejamento a médio e longo prazo.


Ontem, no dia 10 de dezembro de 2008, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, em sessão de julgamento realizada no Teatro Plácido de Castro, em Rio Branco, decidiu, por unanimidade, declarar Chico Mendes um anistiado político brasileiro. Na ocasião, o Ministro de Estado da Justiça, Tarso Genro, pediu perdão à viúva e aos filhos de Chico Mendes, em nome do Estado brasileiro, pelas perseguições impingidas contra o líder sindical durante a Ditadura Militar (1964-1985).

Tantos outros companheiros e companheiras, cujas trajetórias individuais foram drasticamente alteradas com sua luta pela democracia e contra o Estado de Exceção, ainda não receberam esse pedido formal de desculpas do Estado brasileiro. Em cada sessão de julgamento da Comissão de Anistia, a democracia brasileira se fortalece, como se ela se imbuísse da força de cada um anistiando e cada uma anistianda que lutaram pelo Brasil: mortos, desaparecidos, presos políticos e perseguidos dos tempos de chumbo. Ainda há um longo caminho de consolidação da democracia brasileira, que passa indubitavelmente pela discussão da Lei de Anistia, outorgada durante a Ditadura Militar, em 1979, e pela responsabilização penal pelos crimes de tortura cometidos contra os direitos humanos por agentes do Estado brasileiro.

Há dois anos, no dia 10 de dezembro de 2006, morria Pinochet, sanguinário ditador chileno. Com certeza ele foi pro inferno.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O legado grego


Os gregos inventaram o conceito. Os jogos olímpicos, a filosofia e o teatro também. Na Antigüidade, as prostitutas gregas, talvez por saber que a propaganda era a alma do negócio, desenvolveram uma das mais antigas campanhas publicitárias de que se tem notícia: ΑΚΟΛΟΥΘΙ, o "Segue-me" que as solas de suas sandálias imprimiam no chão, facilitando a vida de fornecedoras e consumidores do serviço.

Grécias em chamas

Há cinco dias, jovens gregos insurgiram-se contra o status quo e têm enfrentado a Polícia nas ruas depois que um integrante de uma tropa de elite matou um estudante. O policial assassino foi indiciado por homicídio doloso, quando há intenção de matar, e seu parceiro como cúmplice. Em outros países da Europa, em representações diplomáticas gregas, também aconteceram atos de repúdio ao assassinato cometido em nome do Estado grego. Agora, os manifestantes querem a renúncia do Primeiro-Ministro.

Brasil: o país do futebol

No Brasil, há três dias acabou o campeonato brasileiro de futebol. Meu time ficou em terceiro lugar. O jogo decisivo do campeonato por pontos corridos mais disputado a que assisti - tenho 30 anos - aconteceu entre o São Paulo e o Goiás, no recém-inaugurado estádio do Gama, que fica na região administrativa homônima, aqui em Brasília. Alguns dias antes do jogo, quando um colega, em sala de aula, comentou que o ingresso custaria 400 reais, quase um salário-mínimo, fui descobrir na Internet o porquê. Não era coisa do governador Arruda, afinal, e sim da diretoria do Goiás. Obviamente, não tinha razões nem recursos para ir ao jogo e não fui.

Acontece que, numa fatalidade daquelas em que só quem usa uma arma de fogo pode incorrer, um sargento da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) deu uma coronhada na nuca de um torcedor são-paulino. O agente do Estado, no exercício de suas funções, com o dedo no gatilho e o cão armado, baleou na cabeça o torcedor que viajara de São Paulo a Brasília e pagara o ingresso exorbitante para assistir ao jogo decisivo. Agora, ele está em estado gravíssimo no Hospital de Base, onde mataram o Tancredo Neves em 1985. Deus o livre, coitado!

Fire in the hole!

Enquanto o torcedor corre risco de morte no maior hospital público do DF, em que pacientes quase sempre agonizam por horas à espera de tratamento, a advogada do policial militar já conseguiu a liberdade provisória de seu cliente. O sargento, que em 20 anos de carreira policial militar fez quatro cursos de aperfeiçoamento no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças da PMDF - o que, presumivelmente, lhe dá ainda mais credibilidade para a consecução de suas atividades policiais - desenvolve agora apenas funções administrativas no quartel.

A televisão transmitiu a tragédia, claro. No ápice da encenação, o governador Arruda sublimou o acontecido. Ele quer é Brasília como sede da Copa do Mundo de 2014.


Nós, brasileiros de qualquer lugar, ainda temos muito o que aprender com os gregos sobre a democracia e sobre nós mesmos.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Saudades de Barbacena

JAULA - Marcelo Mourão Motta Grossi

Se a noite cai dentro de mim
resta pouco, quase nada
daquele eu que você não conheceu:
tão confuso, tão honesto

O real assola; e quem consola?
A vida te bate na cara e depois assopra

Eu abro a porta, eu dou esmola
eu converso com cachorros de rua
antes de voltar pra jaula

E a melodia triste que já não toca
lembra o que perdi e tento esquecer
pra não continuar perdendo:
tão difuso, tão quieto

Aqui dentro é tão suave a loucura
tão tardio o meu canto
e tão certo o cheiro da morte:
que venham os eletrochoques

Hoje não vou gritar pela minha mãe

Feliz 2008!

Há quase um ano, meu amigo Celso Lungaretti, na iminência do raiar de 2008, desejou que todas as utopias se realizassem no ano vindouro, agora prestes a terminar. Lungaretti é um sujeito que nunca vi, com quem só falei por telefone e por e-mail, mas que me dá a impressão de ser um velho companheiro, apesar de ter mais idade do que meu pai: que nunca foi meu companheiro. Nunca!

Lungaretti escreveu o "Náufrago da Utopia", objeto de breve resenha nos primórdios desse blog (quase) em desuso. Em última instância, meu blog praticamente só existe porque o Lungaretti existe e conheci sua história. Afinal, sou apenas outro náufrago da utopia: um tipo que subverte o real para, a partir do não-real, redefinir os limites da própria realidade.


Haja catarse para seguir vivo. Que o digam companheiros como o Lungaretti. Sobretudo aqueles que sobreviveram ao DOI-CODI, ao DOPS e tantas outras siglas da Repressão que, de tão humanas - no sentido falho, vil e sádico -, trataram com tanta crueza aqueles que se impunham contra o Estado de Exceção, cuja manutenção dependia das mesmas siglas.

Mas como, leitor, chegar vivo até 2009 se 2008 foi barra tão pesada? Como sublimar, por exemplo, o casal Nardoni e a pequena que foi arremessada pela janela? E eu, que sempre pensei que o meu pai era um filho da puta, como fico?! Como aceitar que Oficiais do Exército, na vigência do Estado Democrático de Direito, entreguem traficantes a rivais de outro morro? Como abstrair o seqüestro e o assassinato de Eloá Pimentel e os desdobramentos, midiáticos ou não, de mais um caso trágico de violência envolvendo a banalidade da morte? Como se calar diante das dúzias de mortos nas enchentes em Santa Catarina, tal qual fossem eles culpados pela ocupação de áreas de risco e essa mera explicação técnica, um paliativo a menosprezar tanta dor, sem qualquer solidariedade? Como aceitar um feliz 2009 se, em 2008, não tivemos muitos momentos felizes, para além da contemplação do nosso próprio umbigo?


Catarse, meus caros. Encarar 2008, no apagar das luzes, como algo feliz, imagino. E, ao final de 2009, daqui um ano, depois de todas as tragédias que, certamente, acometerão cada um, o Brasil e o mundo, ao invés de desejar ao próximo um "feliz 2010", deseje um "feliz 2009".

Então, caro leitor, feliz 2008. E que as utopias, se possível, se realizem no ano que vai nascer...