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segunda-feira, 29 de junho de 2009

Meu pecado

Flávio Schettini é meu parceiro em três composições. "Meu pecado" é a mais recente delas.

Há uma semana, a gente resolveu registrá-la com dois notebooks, quatro celulares e uma câmera digital. Como ninguém tem um software de edição nem tempo para editar o material, resolvi publicar o bruto mesmo.


quarta-feira, 25 de março de 2009

Águas de março (7)

Meu caro Marcelo Mourão Motta Grossi,

Agradeço a gentileza da remessa do poema que muito apreciei. Desejo-lhe o merecido êxito em sua jornada poética.

Atenciosamente,

Lêdo Ivo

segunda-feira, 16 de março de 2009

Águas de março (5)

Recebi um e-mail do Lexicógrafo-Chefe da A.B.L. confirmando o envio do meu poema a Lêdo Ivo.

São as águas de março...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

SETEMBRO

A Lêdo Ivo, imortal

Eu jurei à morte me calar
mesmo sabendo que jurar é pecado
como ensinou minha mãe

Eu prometi, então, à morte me calar
e só assistir a tudo em silêncio
soturno, canhestro
puro/impuro
interdito do medo
que é o pior
e o melhor de mim

Eu quis à morte me calar
a jurar à morte, com os olhos, enfim, por paz

Eu não quis mais esse eu apodrecido:
meus pulmões oxidados
meus rins obsessivos
meus olhos cansados de olhar por trinta anos
e, ainda assim, não enxergar nada

Eu quis esquecer e nunca mais escrever
a verve que pulsa incandescente
sob a razão que envilece
e o amor que liberta

Eu aprendi as regras e as exceções do uso da crase
antes de ter certeza dos fins e das finalidades
dos princípios e dos meios da poesia e da vida

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Belo Horizonte


Por ocasião do aniversário de 111 anos de Belo Horizonte, cidade fundada em 12 de dezembro de 1897, uma homenagem do poeta a sua terra natal.

Minha pátria - Marcelo Mourão Motta Grossi

Minha pátria também não é a língua portuguesa
nem a russa, nem a inglesa

Nenhuma língua é minha pátria

Minha pátria é a terra da minha infância
e a terra misturada a minério
que encaroça minhas veias
à medida que mineradoras aleijam a Serra do Curral
E o céu debruçado sobre as montanhas de Belo Horizonte
olhando as pernas bonitas das moças
que sobem/descem morros
de asfalto, de paralelepípedos, de terra
e atravessam pinguelas sobre córregos imundos
porque não têm dinheiro para a passagem de ônibus

Minha pátria é cada nome que dá nome a cada rua
e a cada bairro onde, sob a subjetividade objetivada
e a objetividade subjetivada,
quase se fundem e se confundem na língua das pessoas,
nome a nome, um a um

Minha pátria é o caminhão do lixo e os lixeiros
e os meninos suburbanos que atacavam a pedradas
invasores quase imaginários
bairro contra bairro no meio da rua
e hoje, homens de família, cuidam dos filhos
das mulheres e das contas do mês

Minha pátria é o velho louco que gritava meu nome
e aquela outra louca, a Godeliva, filha do dono do cortiço em que [ morávamos
e que espreitava-nos, mamãe e eu, no barraco onde vivíamos
nossa vida boa: sem geladeira, sem televisão

Minha pátria é minha terra, não minha língua
Minha língua é minha reflexão

Com ela transmuto esses tempos de fezes em templos de fé

Foto: Emmanuel Pinheiro

sábado, 6 de dezembro de 2008

Saudades de Barbacena

JAULA - Marcelo Mourão Motta Grossi

Se a noite cai dentro de mim
resta pouco, quase nada
daquele eu que você não conheceu:
tão confuso, tão honesto

O real assola; e quem consola?
A vida te bate na cara e depois assopra

Eu abro a porta, eu dou esmola
eu converso com cachorros de rua
antes de voltar pra jaula

E a melodia triste que já não toca
lembra o que perdi e tento esquecer
pra não continuar perdendo:
tão difuso, tão quieto

Aqui dentro é tão suave a loucura
tão tardio o meu canto
e tão certo o cheiro da morte:
que venham os eletrochoques

Hoje não vou gritar pela minha mãe

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Fechado para balanço em 2008...


... pela inércia quase inépcia de quem (não) vos fala...

"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho..."

Mário Quintana

domingo, 30 de dezembro de 2007

Sempre mais do mesmo?

No dia que antecede o Réveillon, um pouco de Drummond para celebrar a passagem do ano. E, como diz o Lungaretti, que as utopias se realizem no ano que vai nascer, quaisquer que sejam elas. Ou não.

Feliz 2008!

Agora falta pouco...

Passagem do ano - C.D.A.

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor

[ da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações

[ de aniversário, formatura, promoção, glória,
[ doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o

[ clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos

[ séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras

[ espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Dia das Mães

Tem coisas que marcam nossas vidas. Pense na sua vida, na memória mais remota da sua infância. Quem estava lá com você?

Eu tenho antigas lembranças em preto e branco de uma moça bonita, de vinte e poucos anos, branquinha, de olhos claros: minha mãe. O corpo dela foi meu primeiro abrigo, minha primeira fonte de sustento.

Mas ser mãe não é apenas ser genitora e provedora. Os sentimentos ligados à maternidade não estão, penso eu, necessariamente vinculados à vida intra-uterina e à amamentação. Que o digam as mães que escolhem amar seus filhos adotivos como se fossem biológicos.

Ser mãe é, sobretudo, amar e ensinar. Educar para a cidadania e para o respeito ao outro. Quem me ensinou isso foi minha mãe, cristã, que sempre disse que Jesus Cristo era exemplo do varão perfeito. Ser mãe é acolher e acalentar, como fez Maria, mãe de Jesus. Ser mãe é instruir, orientar para o bem, como também fez a minha.

Hoje, aos 29 anos, não sou mais o menino da década de 80, encantado com aquela moça bonita e doce. Eu sou o cara que cresceu ouvindo “homem é aquele que olha para o alto”. E a moça bonita, que sempre teve razão em quase tudo, tornou-se uma senhora bonita que, aos 51 anos, prefere a roça à cidade, o jardim do sítio à vista do apartamento vizinho.

Há muito tempo li que ser mãe é padecer no paraíso. Isso eu acho que nunca vou entender...

À minha mãe, pelo maior legado dos pais para os filhos: o amor e a educação, e a todas as mães, a homenagem mais sincera. Os versos de uma poesia de um dos maiores escritores da língua portuguesa de todos os tempos, o poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade. Poesia essa musicada por Milton Nascimento e gravada no álbum Clube da Esquina 2, de 1978, ano em que eu nasci.

Canção Amiga (C.D.A.)

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Drummond

A flor e a náusea - C.D.A.

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.