sábado, 13 de dezembro de 2008

O que tem que ser, tem força!


Lembro muito bem do Motta, embora tenha estranhado quando ouvi, pela primeira vez, um senhor referir-se a ele assim. Primeira e única, talvez. Para mim e meus primos, o Motta sempre foi o vovô Tino: herói de histórias e aventuras no sertão de Minas e no garimpo do São Francisco, contadas em primeira pessoa.

Justino Mourão Motta sabia das coisas. "O que tem que ser, tem força!" - ele sempre disse.

Um dia desses, conversando com um amigo que conheço desde 1995, Flávio Schettini, a voz do "arroz, arroz com feijão, essa mistura construiu uma nação", a gente constatou que o Motta e o Schettini, o meu avô materno e o paterno dele, moraram na Serra da Canastra no começo da década de 1940, nas proximidades da Casca d'Antas, a nascente do São Francisco; que encantavam minha imaginação de criança.

De repente, pensei em memória genética. Mas concordei com o Motta, que era semi-analfabeto: o que tem que ser, tem força!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Belo Horizonte


Por ocasião do aniversário de 111 anos de Belo Horizonte, cidade fundada em 12 de dezembro de 1897, uma homenagem do poeta a sua terra natal.

Minha pátria - Marcelo Mourão Motta Grossi

Minha pátria também não é a língua portuguesa
nem a russa, nem a inglesa

Nenhuma língua é minha pátria

Minha pátria é a terra da minha infância
e a terra misturada a minério
que encaroça minhas veias
à medida que mineradoras aleijam a Serra do Curral
E o céu debruçado sobre as montanhas de Belo Horizonte
olhando as pernas bonitas das moças
que sobem/descem morros
de asfalto, de paralelepípedos, de terra
e atravessam pinguelas sobre córregos imundos
porque não têm dinheiro para a passagem de ônibus

Minha pátria é cada nome que dá nome a cada rua
e a cada bairro onde, sob a subjetividade objetivada
e a objetividade subjetivada,
quase se fundem e se confundem na língua das pessoas,
nome a nome, um a um

Minha pátria é o caminhão do lixo e os lixeiros
e os meninos suburbanos que atacavam a pedradas
invasores quase imaginários
bairro contra bairro no meio da rua
e hoje, homens de família, cuidam dos filhos
das mulheres e das contas do mês

Minha pátria é o velho louco que gritava meu nome
e aquela outra louca, a Godeliva, filha do dono do cortiço em que [ morávamos
e que espreitava-nos, mamãe e eu, no barraco onde vivíamos
nossa vida boa: sem geladeira, sem televisão

Minha pátria é minha terra, não minha língua
Minha língua é minha reflexão

Com ela transmuto esses tempos de fezes em templos de fé

Foto: Emmanuel Pinheiro

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Pinochet foi pro inferno


Há 60 anos, no dia 10 de dezembro de 1948, foi promulgada em Paris a Declaração Universal dos Direitos Humanos, peremptoriamente violada desde então - seja pelo arbítrio do Estado ou com sua conivência, seja pela população de um Estado-Nação ou parte dela.

Há quase 40 anos, no dia 13 de dezembro de 1968, foi outorgado o Ato Institucional Nº5 (AI-5), um exemplo sórdido e irrefutável de violação sistemática dos direitos humanos no Brasil. Não há o que se comemorar, obviamente. Talvez, apenas as "viúvas" da Ditadura Militar e suas crias: bestas-feras que insistem em fazer a "carroça" da História andar em marcha-ré.


Há quase 20 anos, no dia 22 de dezembro de 1988, assassinaram Chico Mendes, seringueiro e líder sindical desde os enfrentamentos que opuseram "nativos" e "paulistas" nos seringais do Acre, na década de 1970. À época, Chico Mendes foi indiciado pela Lei de Segurança Nacional. A defesa da floresta não era considerada estratégica pelos militares, que estimulavam a ocupação e a exploração econômica da Amazônia, sem qualquer planejamento a médio e longo prazo.


Ontem, no dia 10 de dezembro de 2008, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, em sessão de julgamento realizada no Teatro Plácido de Castro, em Rio Branco, decidiu, por unanimidade, declarar Chico Mendes um anistiado político brasileiro. Na ocasião, o Ministro de Estado da Justiça, Tarso Genro, pediu perdão à viúva e aos filhos de Chico Mendes, em nome do Estado brasileiro, pelas perseguições impingidas contra o líder sindical durante a Ditadura Militar (1964-1985).

Tantos outros companheiros e companheiras, cujas trajetórias individuais foram drasticamente alteradas com sua luta pela democracia e contra o Estado de Exceção, ainda não receberam esse pedido formal de desculpas do Estado brasileiro. Em cada sessão de julgamento da Comissão de Anistia, a democracia brasileira se fortalece, como se ela se imbuísse da força de cada um anistiando e cada uma anistianda que lutaram pelo Brasil: mortos, desaparecidos, presos políticos e perseguidos dos tempos de chumbo. Ainda há um longo caminho de consolidação da democracia brasileira, que passa indubitavelmente pela discussão da Lei de Anistia, outorgada durante a Ditadura Militar, em 1979, e pela responsabilização penal pelos crimes de tortura cometidos contra os direitos humanos por agentes do Estado brasileiro.

Há dois anos, no dia 10 de dezembro de 2006, morria Pinochet, sanguinário ditador chileno. Com certeza ele foi pro inferno.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O legado grego


Os gregos inventaram o conceito. Os jogos olímpicos, a filosofia e o teatro também. Na Antigüidade, as prostitutas gregas, talvez por saber que a propaganda era a alma do negócio, desenvolveram uma das mais antigas campanhas publicitárias de que se tem notícia: ΑΚΟΛΟΥΘΙ, o "Segue-me" que as solas de suas sandálias imprimiam no chão, facilitando a vida de fornecedoras e consumidores do serviço.

Grécias em chamas

Há cinco dias, jovens gregos insurgiram-se contra o status quo e têm enfrentado a Polícia nas ruas depois que um integrante de uma tropa de elite matou um estudante. O policial assassino foi indiciado por homicídio doloso, quando há intenção de matar, e seu parceiro como cúmplice. Em outros países da Europa, em representações diplomáticas gregas, também aconteceram atos de repúdio ao assassinato cometido em nome do Estado grego. Agora, os manifestantes querem a renúncia do Primeiro-Ministro.

Brasil: o país do futebol

No Brasil, há três dias acabou o campeonato brasileiro de futebol. Meu time ficou em terceiro lugar. O jogo decisivo do campeonato por pontos corridos mais disputado a que assisti - tenho 30 anos - aconteceu entre o São Paulo e o Goiás, no recém-inaugurado estádio do Gama, que fica na região administrativa homônima, aqui em Brasília. Alguns dias antes do jogo, quando um colega, em sala de aula, comentou que o ingresso custaria 400 reais, quase um salário-mínimo, fui descobrir na Internet o porquê. Não era coisa do governador Arruda, afinal, e sim da diretoria do Goiás. Obviamente, não tinha razões nem recursos para ir ao jogo e não fui.

Acontece que, numa fatalidade daquelas em que só quem usa uma arma de fogo pode incorrer, um sargento da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) deu uma coronhada na nuca de um torcedor são-paulino. O agente do Estado, no exercício de suas funções, com o dedo no gatilho e o cão armado, baleou na cabeça o torcedor que viajara de São Paulo a Brasília e pagara o ingresso exorbitante para assistir ao jogo decisivo. Agora, ele está em estado gravíssimo no Hospital de Base, onde mataram o Tancredo Neves em 1985. Deus o livre, coitado!

Fire in the hole!

Enquanto o torcedor corre risco de morte no maior hospital público do DF, em que pacientes quase sempre agonizam por horas à espera de tratamento, a advogada do policial militar já conseguiu a liberdade provisória de seu cliente. O sargento, que em 20 anos de carreira policial militar fez quatro cursos de aperfeiçoamento no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças da PMDF - o que, presumivelmente, lhe dá ainda mais credibilidade para a consecução de suas atividades policiais - desenvolve agora apenas funções administrativas no quartel.

A televisão transmitiu a tragédia, claro. No ápice da encenação, o governador Arruda sublimou o acontecido. Ele quer é Brasília como sede da Copa do Mundo de 2014.


Nós, brasileiros de qualquer lugar, ainda temos muito o que aprender com os gregos sobre a democracia e sobre nós mesmos.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Saudades de Barbacena

JAULA - Marcelo Mourão Motta Grossi

Se a noite cai dentro de mim
resta pouco, quase nada
daquele eu que você não conheceu:
tão confuso, tão honesto

O real assola; e quem consola?
A vida te bate na cara e depois assopra

Eu abro a porta, eu dou esmola
eu converso com cachorros de rua
antes de voltar pra jaula

E a melodia triste que já não toca
lembra o que perdi e tento esquecer
pra não continuar perdendo:
tão difuso, tão quieto

Aqui dentro é tão suave a loucura
tão tardio o meu canto
e tão certo o cheiro da morte:
que venham os eletrochoques

Hoje não vou gritar pela minha mãe