Assim como Nelson Rodrigues atribuiu a Otto Lara Resende a frase "O mineiro só é solidário no câncer", que o jornalista mineiro Lara Resende sempre negou, e a coisificação da frase em si tornou-se muito mais relevante do que o fato de ele tê-la proferido ou não, também se atribuiu ao estadista francês Charles de Gaulle as palavras "O Brasil não é um país sério", em visita ao país em 1960. Certo é que o Brasil é um país pitoresco, sobretudo ao olhar estrangeiro.
David Ben-Gurion, um dos fundadores do Estado de Israel, ao se referir à renúncia de Jânio Quadros, perguntou-se como alguém poderia renunciar em um país com tanta água. Questionamento que pode parecer ingênuo para um brasileiro que desperdiça água lavando seu carro no fim-de-semana, mas é bem pertinente quando se trata de Eretz Israel.
Ainda que De Gaulle não tenha mesmo dito a frase a ele atribuída, qualquer brasileiro mais ou menos consciente e realista há de concordar com o francês. Este país não é sério, definitivamente.
Como levar a sério, por exemplo, uma nação em que a pasta do Turismo é administrada por uma sexóloga que, no último dia 13 de maio, afirmou "Relaxa e goza, porque depois você esquece todos os transtornos", ao comentar a crise aeroportuária hoje recorrente, deflagrada em setembro de 2006, quando 153 passageiros e tripulantes do vôo 1907 da Gol foram imolados no choque entre uma aeronave Boeing 737-800 SFP e um jato Embraer Legacy 600, que pertencia a uma empresa estadunidense e era pilotado por estadunidenses? O discurso da Ministra Marta Suplicy é o discurso da autoridade, certo?
quarta-feira, 20 de junho de 2007
sexta-feira, 11 de maio de 2007
Papo de antropólogo urbano
Conhece o "você sabe com quem está falando?" de quem opta pelo mundo do crime? É a hora que ele aponta um 38 velho pra sua cara. Diferente do playboy que pergunta "você sabe com quem está falando?" porque tem um parente endinheirado e/ou influente que, tacitamente, endossa qualquer atitude do FDP.
O "você sabe com quem está falando?" do bandido é tão efetivo quanto o do playboy, já que jiu-jitsu nenhum torna o corpo imune à bala, obviamente. A diferença é que, para o bandido, o que transforma o playboy em vítima em potencial é exatamente o "você sabe com quem está falando?" dele. O playboy tem, o bandido quer.
Eu aprendi isso em quatro anos como pesquisador no Setor P-Sul. Os caras vão "pros trabalho", vão "trabalhar". Isso é posição e situação de classe. Eu não estou falando de pobre e rico, mas de bandido e alvo. Nem todo pobre é bandido, claro. Nem todo alvo é rico. O alvo é quem está no lugar errado e na hora errada. O encontro entre os dois mundos engendra uma "negociação da realidade". O resto do mundo pára. É só você e ele, e você vai perder. Afinal, você sabe com quem está falando?
Como diz o Mano Brown, "a senzala avisou, mauricinho agora paga o preço". Ou, referindo-se a um contexto bem distinto, como diz a Tracy Chapman, "choose sides or run for your life".
O "você sabe com quem está falando?" do bandido é tão efetivo quanto o do playboy, já que jiu-jitsu nenhum torna o corpo imune à bala, obviamente. A diferença é que, para o bandido, o que transforma o playboy em vítima em potencial é exatamente o "você sabe com quem está falando?" dele. O playboy tem, o bandido quer.
Eu aprendi isso em quatro anos como pesquisador no Setor P-Sul. Os caras vão "pros trabalho", vão "trabalhar". Isso é posição e situação de classe. Eu não estou falando de pobre e rico, mas de bandido e alvo. Nem todo pobre é bandido, claro. Nem todo alvo é rico. O alvo é quem está no lugar errado e na hora errada. O encontro entre os dois mundos engendra uma "negociação da realidade". O resto do mundo pára. É só você e ele, e você vai perder. Afinal, você sabe com quem está falando?
Como diz o Mano Brown, "a senzala avisou, mauricinho agora paga o preço". Ou, referindo-se a um contexto bem distinto, como diz a Tracy Chapman, "choose sides or run for your life".
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Dia das Mães
Tem coisas que marcam nossas vidas. Pense na sua vida, na memória mais remota da sua infância. Quem estava lá com você?
Eu tenho antigas lembranças em preto e branco de uma moça bonita, de vinte e poucos anos, branquinha, de olhos claros: minha mãe. O corpo dela foi meu primeiro abrigo, minha primeira fonte de sustento.
Mas ser mãe não é apenas ser genitora e provedora. Os sentimentos ligados à maternidade não estão, penso eu, necessariamente vinculados à vida intra-uterina e à amamentação. Que o digam as mães que escolhem amar seus filhos adotivos como se fossem biológicos.
Ser mãe é, sobretudo, amar e ensinar. Educar para a cidadania e para o respeito ao outro. Quem me ensinou isso foi minha mãe, cristã, que sempre disse que Jesus Cristo era exemplo do varão perfeito. Ser mãe é acolher e acalentar, como fez Maria, mãe de Jesus. Ser mãe é instruir, orientar para o bem, como também fez a minha.
Hoje, aos 29 anos, não sou mais o menino da década de 80, encantado com aquela moça bonita e doce. Eu sou o cara que cresceu ouvindo “homem é aquele que olha para o alto”. E a moça bonita, que sempre teve razão em quase tudo, tornou-se uma senhora bonita que, aos 51 anos, prefere a roça à cidade, o jardim do sítio à vista do apartamento vizinho.
Há muito tempo li que ser mãe é padecer no paraíso. Isso eu acho que nunca vou entender...
À minha mãe, pelo maior legado dos pais para os filhos: o amor e a educação, e a todas as mães, a homenagem mais sincera. Os versos de uma poesia de um dos maiores escritores da língua portuguesa de todos os tempos, o poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade. Poesia essa musicada por Milton Nascimento e gravada no álbum Clube da Esquina 2, de 1978, ano em que eu nasci.
Canção Amiga (C.D.A.)
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Eu tenho antigas lembranças em preto e branco de uma moça bonita, de vinte e poucos anos, branquinha, de olhos claros: minha mãe. O corpo dela foi meu primeiro abrigo, minha primeira fonte de sustento.
Mas ser mãe não é apenas ser genitora e provedora. Os sentimentos ligados à maternidade não estão, penso eu, necessariamente vinculados à vida intra-uterina e à amamentação. Que o digam as mães que escolhem amar seus filhos adotivos como se fossem biológicos.
Ser mãe é, sobretudo, amar e ensinar. Educar para a cidadania e para o respeito ao outro. Quem me ensinou isso foi minha mãe, cristã, que sempre disse que Jesus Cristo era exemplo do varão perfeito. Ser mãe é acolher e acalentar, como fez Maria, mãe de Jesus. Ser mãe é instruir, orientar para o bem, como também fez a minha.
Hoje, aos 29 anos, não sou mais o menino da década de 80, encantado com aquela moça bonita e doce. Eu sou o cara que cresceu ouvindo “homem é aquele que olha para o alto”. E a moça bonita, que sempre teve razão em quase tudo, tornou-se uma senhora bonita que, aos 51 anos, prefere a roça à cidade, o jardim do sítio à vista do apartamento vizinho.
Há muito tempo li que ser mãe é padecer no paraíso. Isso eu acho que nunca vou entender...
À minha mãe, pelo maior legado dos pais para os filhos: o amor e a educação, e a todas as mães, a homenagem mais sincera. Os versos de uma poesia de um dos maiores escritores da língua portuguesa de todos os tempos, o poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade. Poesia essa musicada por Milton Nascimento e gravada no álbum Clube da Esquina 2, de 1978, ano em que eu nasci.
Canção Amiga (C.D.A.)
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
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quarta-feira, 2 de maio de 2007
Cego e surdo
Tem gente que deveria pensar antes de rebolar. Tem gente que deveria pensar a rebolar.
Tem tempo que não penso sociologicamente. Tem tempo que não reflito nem mesmo sobre a Síndrome de Donnie Brasco. Tem tempo que não escrevo ensaios antropológicos. Nunca senti saudades da UnB, eu acho; mas ouvir Thaíde e DJ Hum, depois de anos, despertou uma lembrança nostálgica de livros resenhados em madrugadas insanas e ensaios escritos depois do prazo de entrega. Como era bom ser um estudante picareta e ter boas notas!
Mas como é extremamente mais difícil ser cego e surdo no Brasil. Principalmente quando você vê um deputado corrupto chorar na televisão numa semana, e duas semanas depois você ouve os versos "o deputado foi fisgado e pra dar uma de coitado chorou feito criança em frente à tela. Safado, ladrão de pai de família trabalhador. Tinha que ter saído da CPI e ido direto pr'uma cela limpar cocô de corredor em corredor".
O álbum "Assim caminha a humanidade", de Thaíde e DJ Hum, foi lançado em 2000, e continua extremamente pertinente. O mote do cenário político brasileiro é a corrupção. Ninguém confia nos políticos como um todo, independente de partido.
Aliás, no Brasil, partido parece time de futebol, e político, jogador. Só eleitor não é que nem torcedor. Torcedor torce porque quer, por opção. Eleitor vota porque é obrigatório. Será que um dia haverá vontade política para tornar o voto facultativo?
É melhor ser cego e surdo ou rebolar sem pensar?
Tem tempo que não penso sociologicamente. Tem tempo que não reflito nem mesmo sobre a Síndrome de Donnie Brasco. Tem tempo que não escrevo ensaios antropológicos. Nunca senti saudades da UnB, eu acho; mas ouvir Thaíde e DJ Hum, depois de anos, despertou uma lembrança nostálgica de livros resenhados em madrugadas insanas e ensaios escritos depois do prazo de entrega. Como era bom ser um estudante picareta e ter boas notas!
Mas como é extremamente mais difícil ser cego e surdo no Brasil. Principalmente quando você vê um deputado corrupto chorar na televisão numa semana, e duas semanas depois você ouve os versos "o deputado foi fisgado e pra dar uma de coitado chorou feito criança em frente à tela. Safado, ladrão de pai de família trabalhador. Tinha que ter saído da CPI e ido direto pr'uma cela limpar cocô de corredor em corredor".
O álbum "Assim caminha a humanidade", de Thaíde e DJ Hum, foi lançado em 2000, e continua extremamente pertinente. O mote do cenário político brasileiro é a corrupção. Ninguém confia nos políticos como um todo, independente de partido.
Aliás, no Brasil, partido parece time de futebol, e político, jogador. Só eleitor não é que nem torcedor. Torcedor torce porque quer, por opção. Eleitor vota porque é obrigatório. Será que um dia haverá vontade política para tornar o voto facultativo?
É melhor ser cego e surdo ou rebolar sem pensar?
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quarta-feira, 18 de abril de 2007
O coreano que passou geral
Jornalista precisa contar história. Eu não sou jornalista. Portanto, contento-me com uma digressão simples.
Que sociedade produz um massacre em que 59 pessoas são baleadas por uma das vítimas? Vinte e seis feridos à bala sobreviveram, mas houve 33 mortes, incluindo a do suicida. Tão vítima quanto as outras.
O sul-coreano Cho Seung Hui "passou geral" no campus da Virginia Tech e os cidadãos estadunidenses não estão envergonhados, todos e cada um deles? Sim, envergonhados daquela sociedade sectária, hipócrita, racista e extremamente competitiva e revanchista que pari ataques à bala com vítimas às duzias, freqüentemente.
A nossa sociedade é sectária, hipócrita, racista e extremamente competitiva e revanchista também, mas é bem diferente da estadunidense. Aqui há, por exemplo, grupos paramilitares em guerra com as facções do crime organizado globalmente que dominam os morros cariocas e se inserem no tráfico internacional de drogas. Mas a dita opinião pública se comove com a tragédia da criança arrastada até a morte, presa ao cinto de segurança, e se indigna com o pai que esqueceu seu filho no carro, também até a morte.
Lá nos States se decreta luto oficial quando acontece um novo massacre de dúzias de estudantes em instituições de ensino. E o Wal Mart continua vendendo armas na Virgina.
Aqui no Brasil a guerra civil e o banditismo em todos os níveis da sociedade ainda permitem que alguns se encastelem em seus potentados, enquanto a ralé, como eu, se engalfinha em um mercado de trabalho mal remunerado que não absorve nem mesmo quem sempre investiu em capital intelectual. Cada sociedade tem suas mazelas, sim.
Não vim falar de samambaia e xaxim! E se quiser ler uma opinião mais ou menos jornalística, leia o blog do Lelê Teles. Mas cuidado que ele é anti-semita.
Que sociedade produz um massacre em que 59 pessoas são baleadas por uma das vítimas? Vinte e seis feridos à bala sobreviveram, mas houve 33 mortes, incluindo a do suicida. Tão vítima quanto as outras.
O sul-coreano Cho Seung Hui "passou geral" no campus da Virginia Tech e os cidadãos estadunidenses não estão envergonhados, todos e cada um deles? Sim, envergonhados daquela sociedade sectária, hipócrita, racista e extremamente competitiva e revanchista que pari ataques à bala com vítimas às duzias, freqüentemente.
A nossa sociedade é sectária, hipócrita, racista e extremamente competitiva e revanchista também, mas é bem diferente da estadunidense. Aqui há, por exemplo, grupos paramilitares em guerra com as facções do crime organizado globalmente que dominam os morros cariocas e se inserem no tráfico internacional de drogas. Mas a dita opinião pública se comove com a tragédia da criança arrastada até a morte, presa ao cinto de segurança, e se indigna com o pai que esqueceu seu filho no carro, também até a morte.
Lá nos States se decreta luto oficial quando acontece um novo massacre de dúzias de estudantes em instituições de ensino. E o Wal Mart continua vendendo armas na Virgina.
Aqui no Brasil a guerra civil e o banditismo em todos os níveis da sociedade ainda permitem que alguns se encastelem em seus potentados, enquanto a ralé, como eu, se engalfinha em um mercado de trabalho mal remunerado que não absorve nem mesmo quem sempre investiu em capital intelectual. Cada sociedade tem suas mazelas, sim.
Não vim falar de samambaia e xaxim! E se quiser ler uma opinião mais ou menos jornalística, leia o blog do Lelê Teles. Mas cuidado que ele é anti-semita.
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