quarta-feira, 31 de março de 2010

Como Romeu e Julieta?

Escrevi muitos contos entre 1997 e 2006, que integram um volume chamado "Imaginação mórbida".

"Como Romeu e Julieta?" é um deles.

Boa leitura.


Somos o que somos,
Somos judeus, é isso o que somos.
Abençoados somos, e também o nosso mundo,
E doce como o açúcar é a nossa vida.


Canção folclórica iídiche

Immanuel Edelman nunca foi bom com números. Gostava de filosofia e dedicava-se à hermenêutica da Torá. Nutria um interesse secreto pelo rabinado, e estimava o francês Émile Durkheim, que conhecera em leituras sociológicas bem precoces.

O inverno de 1938, em Varsóvia, havia aproximado aquele menino da biblioteca de seu avô materno, um russo francófilo chamado Boris Antokolski, morto pouco tempo antes do nascimento de Immanuel, em um desastre fluvial na América do Sul. Absorto na sociologia francesa, Immanuel ainda tinha 15 anos quando alemães e russos invadiram a Polônia, no dia 1º de setembro de 39, após o pacto germano-soviético de divisão do país.

Ataques simultâneos de alemães e russos marcaram o final do verão de 1939. Dois dias após a invasão da Polônia, França e Inglaterra declaram guerra ao Reich. No dia 7 de setembro, Immanuel completou 16 anos. Vinte dias após seu aniversário, a resistência polonesa sucumbia ante a superioridade bélica tanto de Stálin quanto de Hitler. Aos 16, mesmo todos os incidentes contra judeus na história alemã - inclusive o pogrom conhecido como Kristallnacht, ocorrido em 9 e 10 de novembro de 1938 - e na Europa não permitiram que antevisse os efeitos do anti-semitismo que levaria ao extermínio de seis milhões de judeus entre 1939 e 1945.

Immanuel, a partir do contato com gentios poloneses, já havia experimentado o que era ser judeu vivendo em um país católico. Sentia-se judeu, considerava-se e era considerado como tal. Ele sabia, e não questionava, que a lei do país é a lei. Com a invasão nazista, judeus são proibidos de frequentarem parques, bares e restaurantes, até mesmo de se sentarem em bancos públicos. A partir de 1º de dezembro de 1939, todos os judeus maiores de 12 anos são obrigados a usar, quando fora de casa, um emblema com a Estrela de Davi na manga direita, de cor azul sobre um fundo branco, medindo oito centímetros de ponta a ponta, por ordem do Doutor Fischer, governador do distrito de Varsóvia.

Quando alimentavam contra ele qualquer ódio anti-semita, Immanuel refugiava-se nas palavras do Senhor: “Porque povo santo és ao Senhor teu Deus: o Senhor teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o Seu povo próprio, de todos os povos que sobre a terra há”, repetia para si, perscrutando cada palavra à luz de sua fé. Pertencia a um povo diferente de todos os outros do mundo, e tentava encontrar na lei judaica refrigério que aplacasse, ainda que superficialmente, a dor psicológica da perseguição contra os seus.

Era um ashkenazi, mas encantava a Immanuel o ladino dos sefaradim, que conhecera por intermédio de uma linhagem de cohanim italianos que viviam em Varsóvia. Sobretudo, encantara Immanuel uma jovem ítalo-polonesa chamada Anna Rappaport. Yitzchak Edelman e Yitzchak Rappaport, seu pai e o pai dela, eram sócios numa pequena casa de câmbio que funcionava na antiga residência de Boris Antokolski, sogro do pai de Immanuel.

Immanuel era o primogênito de Yitzchak, e ele exigia a companhia do filho, ainda que este permanecesse horas trancado na biblioteca do avô, enquanto o pai trabalhava no andar de baixo com o sócio de mesmo nome.

Immanuel e Anna se conheceram antes de ele se tornar um bar mitzvá. Ela já tinha chegado à puberdade. Immanuel ingressara na yeshivá aos 11 anos e tencionava, desde então, a ordenação rabínica. Filho do mandamento, nunca a tocara até a invasão da Polônia. A lei é a lei, ele sempre soube, e só ignorantes negam sua existência.

No Shabat anterior a seu 13º aniversário e, portanto, à maioridade legal, enquanto repetia o último versículo do fragmento semanal da Torá, Deus revelara a ele que tinha um propósito em sua vida; mas que Immanuel nunca revelou a ninguém.

Com a invasão nazista, tem início a perseguição e o extermínio de judeus na Polônia. Os primeiros guetos são estabelecidos no país no final de 1939, segregando os judeus tal qual na Idade Média; seguidos da criação de conselhos formados por judeus, responsáveis pela comunidade judaica durante a ocupação alemã, denominados Judenrat, e da polícia judia. Por ordem do Dr. Fischer, o dia 31 de outubro de 1940 é estabelecido como prazo final para que toda a população judaica de Varsóvia fosse levada para o distrito judeu da cidade. Para os chefes nazistas, os guetos eram apenas uma medida transitória. Depois de concentrados, e de terem seus bens confiscados, os judeus seriam, sistematicamente, enviados aos campos de extermínio montados em território polonês.

Os dias e meses se tornaram uma sucessão de separações forçosas e assassinatos de parentes e amigos, a sangue frio. A pertença àquele povo, que tanto o orgulhara por se saber escolhido por Deus e, mutuamente, aquele que escolhera o Senhor, ora estigmatizava-o mais do que nunca experimentara, ou ousara pensar um dia vivenciar. E o estigma encerrava o genocídio dos seus.

Muitos anos depois, sobrevivente do Holocausto e envelhecido pelo pendular do tempo, Immanuel ainda sentia o cheiro de Anna Rappaport. E nunca se esqueceu da única mulher que amara. Sobretudo, do abraço desesperado que deu nela, pouco antes de seguirem em trens separados para um futuro incerto. O futuro a Deus pertence.

Para eles, jamais haveria “nós”. Enquanto aquele trem encaminhava Immanuel à morte, a perpetrar-se pela infâmia nazista, ele repetia para si: “Abençoado sejas, ó Senhor nosso Deus, rei do universo”.

São Paulo, 8 de março de 2005

3 comentários:

Strepsiades disse...

Muito bom, revolucionário!

Bea disse...

a pergunta q não quer calar: tu é judeu, talebã?

Grossi-Mouta disse...

No Brasil, Bea, quem não é judeu?