sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Lei Seca: seis meses e?

Depois de seis meses de vigência da Lei Seca, divulgam-se resultados surpreendentes: o número de acidentes aumentou. Que puxa! Os brasileiros continuam matando e morrendo nas estradas do país e nas ruas das cidades. Afinal, tem sido assim desde Olavo Bilac: ele mesmo vítima fatal de acidente automobilístico.

Essa é, talvez, outra de nossas sinas: com nossas máquinas, tanto as compradas a vista quanto as divididas em "n" vezes, somos vítimas e algozes de nós mesmos, brasileiros.

De que adianta, então, a propalada "alcoolemia zero"? Não sei.

Tomara que as multas decorrentes da aplicação da Lei Seca estejam financiando o PAC e, indiretamente, a campanha de Dilma Rousseff para Presidente em 2010.

Acelera, Ayrton! Acelera, Goiás!

Santa Chaos

Santa Chaos showed up, killed 9 at Christmas night in Covina, a suburb of Los Angeles, and set his former wife's parents' house on fire afterwards. Fuck off and die, Mr Pardo? You included, please.

Bruce Jeffrey Pardo AKA Santa Chaos

Now I am wondering how long it will take so that this sorrow becomes a feature film, or even a rock song. Or maybe both.

You Americans never let me down. That is it, folks! Do not disappoint me: keep on killing one another, and make this world a better place to live.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Feliz Natal!

Não tenho muita simpatia pelo Natal: outra festa cristã que foi reinventada, para incorporar uma dimensão consumista ao nascimento de Jesus Cristo. Embora os judeus ainda esperem a primeira vinda do Messias e os muçulmanos considerem a vinda de Cristo tão relevante para o Islã quanto os cristãos consideram Maomé para o cristianismo, no Natal de 2008, são os chineses que têm o maior Papai Noel de neve do mundo.

Eu sempre desconfiei dos chineses. Não que eu seja xenófobo, obviamente. Eu sou mineiro: desconfiado. Filho bastardo da Guerra Fria, sempre achei que, mais cedo ou mais tarde, os Estados Unidos seriam sobrepujados pela União Soviética. Nasci em 1978. Não tinha idade nem senso crítico suficiente para antever o fim da URSS com menos de 13 anos, mas lembro do dia em que o Jornal Nacional exibiu a queda do Muro de Berlim. Hoje em dia, mais de quinze anos depois do colapso da União Soviética, a China é um colosso.

Por outro lado, os EUA são a bola da vez. Japão e Europa esperam na fila. Pobres brasileiros que foram para os EUA, o Japão e a Europa, prostitutas goianas e mineiras em Barcelona e "ladrilheiros" em Miami, Boston e Nova York, brasileiros em todos os cantos do mundo, iludidos pelo subemprego pago em dólar, iene ou euro: desistam dos EUA, do Japão e da Europa, que devem quebrar em 2009.

A China é logo ali.

Feliz Natal!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Google Analytics - Map Overlay


One of these days, I realised Google Analytics has a tool, named Map Overlay, that could indicate where in the world the visitors to this blog are from. Very interesting tool. So far, there have been registered visits from India, Malasia and Thailand, for instance, as well as several countries in Europe, South and North America.

If you happen to be here and don't understand a word but this brief statement, since you don't speak Portuguese, would you mind do say 'hello'?

Viktor Deni's Trotsky (1920) by Guga Baygon

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Chico Mendes: o Lula da floresta?

"No começo, pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a floresta amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade" - Francisco Alves Mendes Filho

Chico Mendes

De todos os estados brasileiros que ainda não conheço, o Acre é dos que mais me fascinam. Não aquele fascínio pelo exótico que o Brasil, historicamente, sempre inspirou no imaginário francês, por exemplo, ante o desconhecido, o diferente, um "outro" radicalmente oposto a si. No meu caso, trata-se de uma admiração que surgiu e cresceu à medida que conheci mais e mais sobre o lugar, sua gente e suas histórias.

Meu interesse pelo Acre começou quando participei de uma série de documentários sobre saberes culturais imateriais da Região Norte, como roteirista, editor e diretor de edição, entre 2004 e 2006. Sobretudo, quando assisti ao depoimento de Osmarino Amâncio Rodrigues, seringueiro acreano, companheiro de Chico Mendes.

Aquelas duas horas de material bruto - sem edição, como captado pelo cinegrafista e pelo técnico de som - com o depoimento de Osmarino não eram apenas uma declaração de amor fraterno ao líder seringueiro. Ali, o discurso de uma testemunha ocular de conflitos vividos no Acre, desde 1973, a tecer a história de sua terra natal, de antes de Plácido de Castro e da quarta Revolução Acreana até à consolidação do Governo dos Povos da Floresta, que deixava claro o papel de Chico Mendes na História: o maior herói brasileiro do último quarto do século 20.

A Paixão de Chico Mendes

Francisco Alves Mendes Filho se tornou conhecido no exterior antes de ser reconhecido no Brasil. Há consenso até entre os ditos jornalistas respeitados de que a grande imprensa brasileira descobriu Chico Mendes e suas lutas às vésperas de seu assassinato. Ou, pior, só depois dele; como admitiu em entrevista o jornalista Zuenir Ventura.

A luta de Chico Mendes em defesa dos seringais e da permanência do seringueiros neles, para preservar a floresta amazônica, tornou-o mundialmente famoso a partir de 1985. Para além da falta de interesse midiático nacional anterior, os seringueiros do Acre eram um estorvo à fronteira de expansão agropastoril que, a partir da década de 1970, promoveu de forma mais ou menos sistemática a ocupação e a destruição da floresta amazônica naquele estado.

Com o apoio de outras lideranças, Chico organizou os "empates", quando famílias inteiras de seringueiros - homens e mulheres, velhos e crianças - impediam com seus próprios corpos que tratores e funcionários com armas de fogo tomassem posse dos seringais para destruí-los. Sua luta em defesa do meio ambiente e da permanência dos seringueiros na floresta conferiu a ele, em 1987, entre outros, o prêmio internacional "Global 500", oferecido pela Organização das Nações Unidas às pessoas que mais haviam se destacado, naquele ano, em defesa da preservação da natureza.

No dia 9 de dezembro de 1988, duas semanas antes de ser assassinado, em entrevista ao Jornal do Brasil, Chico Mendes explicou como funcionavam os empates: "É uma forma de luta que nós encontramos para impedir o desmatamento. É forma pacífica de resistência. (...) No empate, a comunidade se organiza, sob a liderança do sindicato, e, em mutirão, se dirige à área que será desmatada pelos pecuaristas. A gente se coloca diante dos peões e jagunços, com nossas famílias, mulheres, crianças e velhos, e pedimos para eles não desmatarem e se retirarem do local. Eles, como trabalhadores, estão também com o futuro ameaçado. E esse discurso, emocionado, sempre gera resultados. Até porque quem desmata é o peão simples, indefeso e inconsciente".

Chico Mendes era o cara!


Da fricção interétnica às Reservas Extrativistas: uma digressão histórica sobre o legado de Chico Mendes aos Povos da Floresta e ao Brasil

O conceito de fricção interétnica é (tido como) o primeiro conceito criado por um antropólogo brasileiro, Roberto Cardoso de Oliveira, para analisar o contato interétnico entre indígenas e não-índios no Brasil. O conceito é (quase) auto-explicativo. A fricção, inerente ao contato, envolvia o choque: visões de mundo divergentes e mutuamente excludentes que potencializavam o conflito.

Na história recente do Acre, havia disputas entre índios e seringueiros que remontavam aos ciclos da borracha. O primeiro tem origem na demanda por látex para a indústria automobilística estadunidense. No cenário nacional, esse fato imbrica-se à grande seca da década de 1870, que assola o Nordeste e, em especial, o Ceará, dando origem à transumância amazônica - quando cerca de 50 mil nordestinos rumam para a floresta amazônica à procura das chamadas "drogas do sertão"; e se tornam, posteriormente, a mão-de-obra mais abundante do primeiro ciclo da borracha. Durante a Segunda Guerra Mundial, outros milhares de brasileiros, sobretudo nordestinos, os chamados "soldados da borracha", ocupam novamente os seringais do Acre, dessa vez para prover a máquina de guerra aliada em luta contra o nazi-fascismo.

Chico Mendes nasceu no Seringal Cachoeira, em 15 de dezembro de 1944, no município de Xapuri, que conhecera o apogeu e a decadência do primeiro ciclo da borracha no Acre. Filho de seringueiro, também seringueiro. Aprendeu a respeitar o Curupira, ou Caboclinho da Mata, e sabia que, para garantir seu sustento na/da floresta, precisava respeitar todos os recursos do meio ambiente: fauna e flora. Assim, aprendeu a respeitar as seringueiras, fazendo o manejo necessário à recuperação da árvore, sua fonte de renda, de forma sustentável.

Acontece que, paralelamente, com a queda drástica nos preços da borracha, a partir da década de 1960, muitos donos de seringais desistiram do negócio e começaram a vender suas terras para criadores de gado e madeireiros. Foi nesse contexto que Chico Mendes se tornou, cada vez mais, um ator político de destaque nos cenários acreano, brasileiro e internacional.

A partir da década de 1970, no Acre, com sua habilidade nata de negociador e sua disposição genuína em ouvir o próximo, Chico Mendes conseguiu inverter, progressivamente, o eixo do conflito entre índios e seringueiros. À época, era preciso a união do povos da floresta contra inimigos em comum: os ruralistas que tinham a intenção de comprar os seringais e destruir todos os recursos da floresta para transformá-la em pastagens para bovinos.

Sua luta em defesa da floresta amazônica e sua idealização de um modelo de exploração de seus recursos, centrado no extrativismo sustentável da borracha, da castanha-do-pará e da madeira - sistematização de um modus faciendi secular característico dos seringueiros acreanos -, que permitisse a permanência e a sobrevivência do homem amazônico com dignidade e qualidade de vida, redundou nas transformações sociais que propiciaram o estabelecimento das Reservas Extrativistas e do chamado Governo dos Povos da Floresta.

Chico Mendes: o Lula da floresta?

Quem escreve que Chico Mendes foi um homem à frente do seu tempo é jornalista que não sabe o que escrever. Para mim, ele era um homem do seu tempo, no sentido drummondiano ("O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente"). Não é por que o aquecimento global, que provoca mudanças e tragédias climáticas mundo afora há décadas, se tornou, de repente, alvo do interesse midiático e, por conseguinte, da opinião pública, que Chico Mendes se torna, automaticamente, um visionário.

Assim, como Lula, Chico Mendes tem sua trajetória política marcada pela passagem, na primeira metade da década de 1980, da defesa de interesses do grupo de trabalhadores locais a que pertencia para a defesa de interesses mais abrangentes: do sindicato ao Partido dos Trabalhadores (PT). Um torneiro mecânico de Garanhuns, radicado em São Paulo, e um seringueiro de Xapuri unidos pela luta em defesa dos trabalhadores. A partir do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, Lula se torna deputado constituinte pelo PT, em 1986.

Em 1985, Chico Mendes, fundador e presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, cria o Conselho Nacional dos Seringueiros, selando seu destino. Com o primeiro encontro da nova entidade, realizado em Brasília, suas teses ambientalistas começam a repercutir na imprensa internacional. Obviamente, interesses contrários e forças (nada) ocultas começam a definir seu futuro.

Assassinado em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes, analfabeto até os vinte anos de idade, escreveu mais um capítulo da tragédia fundiária brasileira. Quanto vale a vida humana e quanto custa a terra?

Agenda 21, ECO 92, Protocolo de Kyoto e similares: imolaram o maior herói brasileiro do último quarto do século passado para que o Homem descobrisse que a Terra vive, em todos os sentidos.

"E quanto à pergunta que dá nome a esse artigo?" - você deve estar se perguntando. Delego ao leitor a responsabilidade de respondê-la.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Memórias da minha mãe (por ela mesma)

Foi ali, em Iguatama, que Nair aprendeu a fumar. Diziam que espantava os mosquitos, pesadelo daqueles dias. Foi ali, também, que conheceu o Tino Motta. Depois de uma partida de vôlei entre as equipes de Piumhi e Iguatama.

Quando colocou os olhos na professorinha de um metro e meio, esbelta, graciosa, Tino disse para seu amigo: “Vou me casar com ela”.

O namoro começou ali, mas muita água rolou debaixo da ponte até chegar aquele dia.

A família de Nair mudou-se para a capital depois que o sagitariano, perdulário, perdeu quase tudo no jogo. Alugaram um sobrado na av. Bernardo Monteiro, montaram uma fábrica de doces na periferia e foram à luta. A década de 40 despontava.

Nair abandonou a carreira e mudou-se para Belo Horizonte, a pedido dos pais. Revezava-se com as duas irmãs no trabalho doméstico: limpeza, cozinha, roupas, compras. A mãe e o pai trabalhavam na fábrica; os dois rapazes cuidavam das vendas.

Tino Motta, filho de pai abastado que perdeu tudo no jogo, sem estudo, como seus vinte irmãos, passou dez anos tentando ganhar dinheiro para casar-se com Nair. Foi boiadeiro, garimpeiro, padeiro, vendedor de seguros. Nunca desistiu do sonho de encontrar um diamante no Rio São Francisco.

Estava no velho Chico quando soube que Nair, descrente dos dez anos de namoro a distância, ficara noiva de um médico da capital. Desesperado com a notícia volta a Belo Horizonte, com a cara e a coragem, e pede Nair em casamento.

Nair, aos vinte e oito anos, e Tino, aos trinta e quatro, casam-se em Belo Horizonte.

Rosangela Dias Motta
BH - MG - 2008

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

17 de dezembro

Há exatos 15 anos, mudei de Beagá para Brasília. Com toda certeza, como em qualquer rito de passagem, o que eu sou hoje é uma articulação entre o que eu era até então e o que construí de lá pra cá.

Devo a Brasília metade da minha história de vida: 15 anos. A outra, a Belo Horizonte.

17 de dezembro de 2008: 15 anos de Cidade Modernista.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Mercado de trabalho

No Brasil, vida de concursando é moleza. Difícil é a realidade do mercado de trabalho em Bangladesh.

Saca o nível da concorrência.


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Só tem cabeção!

sábado, 13 de dezembro de 2008

O que tem que ser, tem força!


Lembro muito bem do Motta, embora tenha estranhado quando ouvi, pela primeira vez, um senhor referir-se a ele assim. Primeira e única, talvez. Para mim e meus primos, o Motta sempre foi o vovô Tino: herói de histórias e aventuras no sertão de Minas e no garimpo do São Francisco, contadas em primeira pessoa.

Justino Mourão Motta sabia das coisas. "O que tem que ser, tem força!" - ele sempre disse.

Um dia desses, conversando com um amigo que conheço desde 1995, Flávio Schettini, a voz do "arroz, arroz com feijão, essa mistura construiu uma nação", a gente constatou que o Motta e o Schettini, o meu avô materno e o paterno dele, moraram na Serra da Canastra no começo da década de 1940, nas proximidades da Casca d'Antas, a nascente do São Francisco; que encantavam minha imaginação de criança.

De repente, pensei em memória genética. Mas concordei com o Motta, que era semi-analfabeto: o que tem que ser, tem força!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Belo Horizonte


Por ocasião do aniversário de 111 anos de Belo Horizonte, cidade fundada em 12 de dezembro de 1897, uma homenagem do poeta a sua terra natal.

Minha pátria - Marcelo Mourão Motta Grossi

Minha pátria também não é a língua portuguesa
nem a russa, nem a inglesa

Nenhuma língua é minha pátria

Minha pátria é a terra da minha infância
e a terra misturada a minério
que encaroça minhas veias
à medida que mineradoras aleijam a Serra do Curral
E o céu debruçado sobre as montanhas de Belo Horizonte
olhando as pernas bonitas das moças
que sobem/descem morros
de asfalto, de paralelepípedos, de terra
e atravessam pinguelas sobre córregos imundos
porque não têm dinheiro para a passagem de ônibus

Minha pátria é cada nome que dá nome a cada rua
e a cada bairro onde, sob a subjetividade objetivada
e a objetividade subjetivada,
quase se fundem e se confundem na língua das pessoas,
nome a nome, um a um

Minha pátria é o caminhão do lixo e os lixeiros
e os meninos suburbanos que atacavam a pedradas
invasores quase imaginários
bairro contra bairro no meio da rua
e hoje, homens de família, cuidam dos filhos
das mulheres e das contas do mês

Minha pátria é o velho louco que gritava meu nome
e aquela outra louca, a Godeliva, filha do dono do cortiço em que [ morávamos
e que espreitava-nos, mamãe e eu, no barraco onde vivíamos
nossa vida boa: sem geladeira, sem televisão

Minha pátria é minha terra, não minha língua
Minha língua é minha reflexão

Com ela transmuto esses tempos de fezes em templos de fé

Foto: Emmanuel Pinheiro

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Pinochet foi pro inferno


Há 60 anos, no dia 10 de dezembro de 1948, foi promulgada em Paris a Declaração Universal dos Direitos Humanos, peremptoriamente violada desde então - seja pelo arbítrio do Estado ou com sua conivência, seja pela população de um Estado-Nação ou parte dela.

Há quase 40 anos, no dia 13 de dezembro de 1968, foi outorgado o Ato Institucional Nº5 (AI-5), um exemplo sórdido e irrefutável de violação sistemática dos direitos humanos no Brasil. Não há o que se comemorar, obviamente. Talvez, apenas as "viúvas" da Ditadura Militar e suas crias: bestas-feras que insistem em fazer a "carroça" da História andar em marcha-ré.


Há quase 20 anos, no dia 22 de dezembro de 1988, assassinaram Chico Mendes, seringueiro e líder sindical desde os enfrentamentos que opuseram "nativos" e "paulistas" nos seringais do Acre, na década de 1970. À época, Chico Mendes foi indiciado pela Lei de Segurança Nacional. A defesa da floresta não era considerada estratégica pelos militares, que estimulavam a ocupação e a exploração econômica da Amazônia, sem qualquer planejamento a médio e longo prazo.


Ontem, no dia 10 de dezembro de 2008, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, em sessão de julgamento realizada no Teatro Plácido de Castro, em Rio Branco, decidiu, por unanimidade, declarar Chico Mendes um anistiado político brasileiro. Na ocasião, o Ministro de Estado da Justiça, Tarso Genro, pediu perdão à viúva e aos filhos de Chico Mendes, em nome do Estado brasileiro, pelas perseguições impingidas contra o líder sindical durante a Ditadura Militar (1964-1985).

Tantos outros companheiros e companheiras, cujas trajetórias individuais foram drasticamente alteradas com sua luta pela democracia e contra o Estado de Exceção, ainda não receberam esse pedido formal de desculpas do Estado brasileiro. Em cada sessão de julgamento da Comissão de Anistia, a democracia brasileira se fortalece, como se ela se imbuísse da força de cada um anistiando e cada uma anistianda que lutaram pelo Brasil: mortos, desaparecidos, presos políticos e perseguidos dos tempos de chumbo. Ainda há um longo caminho de consolidação da democracia brasileira, que passa indubitavelmente pela discussão da Lei de Anistia, outorgada durante a Ditadura Militar, em 1979, e pela responsabilização penal pelos crimes de tortura cometidos contra os direitos humanos por agentes do Estado brasileiro.

Há dois anos, no dia 10 de dezembro de 2006, morria Pinochet, sanguinário ditador chileno. Com certeza ele foi pro inferno.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O legado grego


Os gregos inventaram o conceito. Os jogos olímpicos, a filosofia e o teatro também. Na Antigüidade, as prostitutas gregas, talvez por saber que a propaganda era a alma do negócio, desenvolveram uma das mais antigas campanhas publicitárias de que se tem notícia: ΑΚΟΛΟΥΘΙ, o "Segue-me" que as solas de suas sandálias imprimiam no chão, facilitando a vida de fornecedoras e consumidores do serviço.

Grécias em chamas

Há cinco dias, jovens gregos insurgiram-se contra o status quo e têm enfrentado a Polícia nas ruas depois que um integrante de uma tropa de elite matou um estudante. O policial assassino foi indiciado por homicídio doloso, quando há intenção de matar, e seu parceiro como cúmplice. Em outros países da Europa, em representações diplomáticas gregas, também aconteceram atos de repúdio ao assassinato cometido em nome do Estado grego. Agora, os manifestantes querem a renúncia do Primeiro-Ministro.

Brasil: o país do futebol

No Brasil, há três dias acabou o campeonato brasileiro de futebol. Meu time ficou em terceiro lugar. O jogo decisivo do campeonato por pontos corridos mais disputado a que assisti - tenho 30 anos - aconteceu entre o São Paulo e o Goiás, no recém-inaugurado estádio do Gama, que fica na região administrativa homônima, aqui em Brasília. Alguns dias antes do jogo, quando um colega, em sala de aula, comentou que o ingresso custaria 400 reais, quase um salário-mínimo, fui descobrir na Internet o porquê. Não era coisa do governador Arruda, afinal, e sim da diretoria do Goiás. Obviamente, não tinha razões nem recursos para ir ao jogo e não fui.

Acontece que, numa fatalidade daquelas em que só quem usa uma arma de fogo pode incorrer, um sargento da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) deu uma coronhada na nuca de um torcedor são-paulino. O agente do Estado, no exercício de suas funções, com o dedo no gatilho e o cão armado, baleou na cabeça o torcedor que viajara de São Paulo a Brasília e pagara o ingresso exorbitante para assistir ao jogo decisivo. Agora, ele está em estado gravíssimo no Hospital de Base, onde mataram o Tancredo Neves em 1985. Deus o livre, coitado!

Fire in the hole!

Enquanto o torcedor corre risco de morte no maior hospital público do DF, em que pacientes quase sempre agonizam por horas à espera de tratamento, a advogada do policial militar já conseguiu a liberdade provisória de seu cliente. O sargento, que em 20 anos de carreira policial militar fez quatro cursos de aperfeiçoamento no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças da PMDF - o que, presumivelmente, lhe dá ainda mais credibilidade para a consecução de suas atividades policiais - desenvolve agora apenas funções administrativas no quartel.

A televisão transmitiu a tragédia, claro. No ápice da encenação, o governador Arruda sublimou o acontecido. Ele quer é Brasília como sede da Copa do Mundo de 2014.

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Nós, brasileiros de qualquer lugar, ainda temos muito o que aprender com os gregos sobre a democracia e sobre nós mesmos.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Saudades de Barbacena

JAULA - Marcelo Mourão Motta Grossi

Se a noite cai dentro de mim
resta pouco, quase nada
daquele eu que você não conheceu:
tão confuso, tão honesto

O real assola; e quem consola?
A vida te bate na cara e depois assopra

Eu abro a porta, eu dou esmola
eu converso com cachorros de rua
antes de voltar pra jaula

E a melodia triste que já não toca
lembra o que perdi e tento esquecer
pra não continuar perdendo:
tão difuso, tão quieto

Aqui dentro é tão suave a loucura
tão tardio o meu canto
e tão certo o cheiro da morte:
que venham os eletrochoques

Hoje não vou gritar pela minha mãe

Feliz 2008!

Há quase um ano, meu amigo Celso Lungaretti, na iminência do raiar de 2008, desejou que todas as utopias se realizassem no ano vindouro, agora prestes a terminar. Lungaretti é um sujeito que nunca vi, com quem só falei por telefone e por e-mail, mas que me dá a impressão de ser um velho companheiro, apesar de ter mais idade do que meu pai: que nunca foi meu companheiro. Nunca!

Lungaretti escreveu o "Náufrago da Utopia", objeto de breve resenha nos primórdios desse blog (quase) em desuso. Em última instância, meu blog praticamente só existe porque o Lungaretti existe e conheci sua história. Afinal, sou apenas outro náufrago da utopia: um tipo que subverte o real para, a partir do não-real, redefinir os limites da própria realidade.


Haja catarse para seguir vivo. Que o digam companheiros como o Lungaretti. Sobretudo aqueles que sobreviveram ao DOI-CODI, ao DOPS e tantas outras siglas da Repressão que, de tão humanas - no sentido falho, vil e sádico -, trataram com tanta crueza aqueles que se impunham contra o Estado de Exceção, cuja manutenção dependia das mesmas siglas.

Mas como, leitor, chegar vivo até 2009 se 2008 foi barra tão pesada? Como sublimar, por exemplo, o casal Nardoni e a pequena que foi arremessada pela janela? E eu, que sempre pensei que o meu pai era um filho da puta, como fico?! Como aceitar que Oficiais do Exército, na vigência do Estado Democrático de Direito, entreguem traficantes a rivais de outro morro? Como abstrair o seqüestro e o assassinato de Eloá Pimentel e os desdobramentos, midiáticos ou não, de mais um caso trágico de violência envolvendo a banalidade da morte? Como se calar diante das dúzias de mortos nas enchentes em Santa Catarina, tal qual fossem eles culpados pela ocupação de áreas de risco e essa mera explicação técnica, um paliativo a menosprezar tanta dor, sem qualquer solidariedade? Como aceitar um feliz 2009 se, em 2008, não tivemos muitos momentos felizes, para além da contemplação do nosso próprio umbigo?


Catarse, meus caros. Encarar 2008, no apagar das luzes, como algo feliz, imagino. E, ao final de 2009, daqui um ano, depois de todas as tragédias que, certamente, acometerão cada um, o Brasil e o mundo, ao invés de desejar ao próximo um "feliz 2010", deseje um "feliz 2009".

Então, caro leitor, feliz 2008. E que as utopias, se possível, se realizem no ano que vai nascer...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O tempo e o Lula

Eu votei no Lula em 1994, quando tinha 16 anos e acreditava em mim, no Che Guevara e no John Lennon, nessa ordem. Votei de novo em 1998, quando era calouro do curso de Ciências Sociais da Universidade de Brasília e já tinha aprendido a duvidar de tudo e de todos. Em 2002, finalmente, com meu voto, a eleição de Lula: o presidente dos pobres, radicalmente oposto a FHC, o "rei-filósofo", colega que meus professores do SOL, sigla heliocêntrica usada para designar o Departamento de Sociologia da UnB, relegaram ao ostracismo acadêmico.



Lula: Presidente da República, cidadão do mundo, em essência é o mesmo de trinta anos atrás? O torneiro mecânico que se tornou sindicalista e, posteriormente, deputado federal constituinte. Ou o quase-Messias que salvaria o Brasil e, na verdade, provou que não era tão diferente de FHC, o tucano.

Lula, comunista?

Dizem que o poder corrompe. Mas, como nunca detive qualquer poder, não posso me valer, para avaliar o Presidente Lula, do ponto de vista de tucanos, DEMocratas ou antigos membros do Partido dos Trabalhadores que fundaram partidos nanicos; nem de quem, tampouco, nunca exerceu qualquer forma de poder conferido por terceiros. Assim, penso mesmo que o Lula de hoje é o mesmo Lula do começo da década de 1980, para além do alarde midiático e das imagens que as mídias constroem e descontroem de acordo com os interesses de quem as controla.

Esquecendo os discursos sobre o "comunista", desde 1989, e atendo-me somente à minha memória dos fatos, não acho mesmo que Lula seja ou tenha sido algum dia comunista em seu íntimo. É só lembrar, por exemplo, as asneiras que ele disse em seis anos de governo, quase sempre que discursa de improviso, para saber que ele não reza (mais?) a cartilha do marxismo-leninismo. Até porque a mera visão de mundo dessa cartilha, de um século atrás, não dá conta das complexidades da realidade contemporânea. Ou dá? Sei não. A menos que os marxistas-leninistas queiram conferir à literatura marxista e marxiana o mesmo estatuto que, por exemplo, os judeus dão à Torá: perfeita e imutável porque Deus é o mesmo e os judeus se submeteram ao jugo dela há milhares de anos.

Lula, oportuno ou oportunista?

Grande Lula! Dizem que ele fica injuriado quando críticos do seu governo afirmam que ele teve sorte no comando do Brasil, devido às conjunturas favoráveis, nacionais e internacionais, durante grande parte de seus dois mandatos. Agora que as "marolas" da crise internacional começam a assolar a economia real brasileira - a Vale demite e dá férias coletivas, a Petrobras toma 2 bi emprestados da Caixa e o futuro parece menos promissor -, Lula tem a oportunidade de provar que estamos enganados sobre ele: eu e aqueles críticos. Talvez um dia ele tenha sido mesmo comunista, haja vista que disse uma vez, provavelmente ao discursar no improviso, que a maturidade o afastara da esquerda. Talvez, quando comandou greves de metalúrgicos no ABC paulista, perdeu o emprego e respondeu por crime contra a Segurança Nacional, ele tenha sido comunista, sim. Talvez...



O tempo também mudou a vida de Cesare Battisti, comunista italiano julgado à revelia em seu país natal por terrorismo, acusado por sua militância política contra o Estado italiano, no seu direito legítimo de se insurgir contra a opressão e a favor das liberdades. Atentados contra o Estado brasileiro a atual Ministra-Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, também cometeu na Ditadura Militar, no exercício dos mesmos direitos, não é mesmo? Agora, cabe ao Ministro da Justiça e ao Presidente da República a decisão entre a extradição de Battisti à Itália fascistóide de Silvio Berlusconi ou conceder-lhe asilo político no Brasil.

Quanto a Tarso Genro, advogado, abstenho-me de emitir qualquer parecer. Mas quanto a Lula, o presidente dos pobres? Será que ele vai fazer como Getúlio Vargas, o gaúcho que entregou Olga Benario Prestes, comunista alemã e judia, a Hitler, o austríaco que transformou o extermínio de judeus em política pública da Alemanha nazista?

Heil Lula?

Fechado para balanço em 2008...


... pela inércia quase inépcia de quem (não) vos fala...

"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho..."

Mário Quintana