sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O caos no Rio e a demonização do usuário

O caos urbano e o terror, recrudescidos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro a partir da última segunda-feira (22), e ligados ao narcotráfico, com quase uma centena de veículos incendiados por bandidos, têm suscitado intensos debates, tanto nos meios de comunicação quanto na sociedade civil.

Assim, cidadãos e cidadãs que, durante o período eleitoral, acusavam a grande mídia de golpista, apesar de não haver quaisquer indícios de golpe, haja vista a consolidação do Estado Democrático de Direito no Brasil, estranhamente repetem, agora, as "verdades" disseminadas pela mesma imprensa que, há pouco mais de um mês, acusavam de fascista.

A demonização do usuário se insere, ad nauseam, nessa discussão balizada pelo senso comum, numa tentativa canhestra de responsabilizá-lo pelo caos no Rio de Janeiro. Como se, ao acender um cigarro de maconha, os usuários de todo o Brasil, automaticamente, financiassem o enfrentamento entre os traficantes e os agentes do Estado. Trata-se de um discurso falacioso, no mínimo incapaz de dar conta da complexidade da globalização do crime e, sobretudo, dos limites da explicação local.

A antropóloga Alba Zaluar, que se dedica ao estudo da violência urbana e da criminalidade à brasileira desde a década de 1980, assim se refere ao contexto carioca, bem diferente do paulista ou do mineiro: "a imagem do menino favelado que com uma AR-15 ou metralhadora UZI na mão, as quais considera como símbolos de sua virilidade e fonte de grande poder local, com um boné inspirado no movimento negro da América do Norte, ouvindo música funk, cheirando cocaína produzida na Colômbia, ansiando por um tênis Nike do último tipo e um carro do ano não pode ser explicada, para simplificar a questão, pelo nível do salário mínimo ou pelo desemprego crescente no Brasil, nem tampouco pela violência costumeira do sertão nordestino. Por um lado, quem levou até ele esses instrumentos do seu poder e prazer, por outro, quem e como se estabeleceram e continuam sendo reforçados nele os valores que o impulsionam à ação na busca irrefreada do prazer e do poder, são obviamente questões que independem do salário mínimo local. Essas afirmações têm vários desdobramentos".

Por sua vez, a demonização do usuário é estratégia engendrada pela Drug Enforcement Administration (DEA), numa tentativa de frear o consumo de drogas nos Estados Unidos. Sabe-se que, no contexto estadunidense, a repressão ao narcotráfico não teve o resultado esperado e que, a despeito das cifras astronômicas investidas no combate dentro e fora de suas fronteiras, não houve diminuição no consumo de drogas pelos norte-americanos. Muito pelo contrário.

Como propugna Celso Lungaretti, ex-preso político, companheiro da presidente eleita Dilma Rousseff na VAR-Palmares, "a criminalidade é intrínseca ao capitalismo".

Demonizar o usuário é, tão-somente, acorrentar-se no interior da caverna, contemplando apenas veículos em chamas, de costas para a realidade.

5 comentários:

ø Johnson ø disse...

Incrível. O brasileiro é essencialmente racista e fascista, sendo mestiço e tendo vocação para a diversidade. Hipocrisia. A gente se vê por aqui.

Paulo R. disse...

Mídia criando heróis, de mãos dadas com a polícia... até ali, na esquina, onde cada um segue seus interesses... enquanto a elite bandida do Morro do Alemão, nômades por natureza, se esparrama por Niterói, São Gonçalo, Baixada Fluminense... queria ver a policia segurando cara de vereador, de deputado, mostrando pra tv, enquanto a platéia aplaude, xinga, cospe... será que veremos isso por aqui?? Abraço!

Ane disse...

Felizmento voltaste a escrever...

Grossi-Mouta disse...

Duvido, seu Paulo. Duvido!

Grossi-Mouta disse...

Hell yeah, Ane!