sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Belo Horizonte


Por ocasião do aniversário de 111 anos de Belo Horizonte, cidade fundada em 12 de dezembro de 1897, uma homenagem do poeta a sua terra natal.

Minha pátria - Marcelo Mourão Motta Grossi

Minha pátria também não é a língua portuguesa
nem a russa, nem a inglesa

Nenhuma língua é minha pátria

Minha pátria é a terra da minha infância
e a terra misturada a minério
que encaroça minhas veias
à medida que mineradoras aleijam a Serra do Curral
E o céu debruçado sobre as montanhas de Belo Horizonte
olhando as pernas bonitas das moças
que sobem/descem morros
de asfalto, de paralelepípedos, de terra
e atravessam pinguelas sobre córregos imundos
porque não têm dinheiro para a passagem de ônibus

Minha pátria é cada nome que dá nome a cada rua
e a cada bairro onde, sob a subjetividade objetivada
e a objetividade subjetivada,
quase se fundem e se confundem na língua das pessoas,
nome a nome, um a um

Minha pátria é o caminhão do lixo e os lixeiros
e os meninos suburbanos que atacavam a pedradas
invasores quase imaginários
bairro contra bairro no meio da rua
e hoje, homens de família, cuidam dos filhos
das mulheres e das contas do mês

Minha pátria é o velho louco que gritava meu nome
e aquela outra louca, a Godeliva, filha do dono do cortiço em que [ morávamos
e que espreitava-nos, mamãe e eu, no barraco onde vivíamos
nossa vida boa: sem geladeira, sem televisão

Minha pátria é minha terra, não minha língua
Minha língua é minha reflexão

Com ela transmuto esses tempos de fezes em templos de fé

Foto: Emmanuel Pinheiro

2 comentários:

fotodiário disse...

Ótimo texto. Quando precisar usar alguma foto fique a vontade, e visite meu blog, ou melhor, um projeto de Blog, pois ainda não sei ora onde direcionar minhas palavras........
Um abraço!!!!
Emmanuel Pinheiro.

Marcelo Grossi disse...

Valeu, cara!

Vamos que vamos!