quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O legado grego


Os gregos inventaram o conceito. Os jogos olímpicos, a filosofia e o teatro também. Na Antigüidade, as prostitutas gregas, talvez por saber que a propaganda era a alma do negócio, desenvolveram uma das mais antigas campanhas publicitárias de que se tem notícia: ΑΚΟΛΟΥΘΙ, o "Segue-me" que as solas de suas sandálias imprimiam no chão, facilitando a vida de fornecedoras e consumidores do serviço.

Grécias em chamas

Há cinco dias, jovens gregos insurgiram-se contra o status quo e têm enfrentado a Polícia nas ruas depois que um integrante de uma tropa de elite matou um estudante. O policial assassino foi indiciado por homicídio doloso, quando há intenção de matar, e seu parceiro como cúmplice. Em outros países da Europa, em representações diplomáticas gregas, também aconteceram atos de repúdio ao assassinato cometido em nome do Estado grego. Agora, os manifestantes querem a renúncia do Primeiro-Ministro.

Brasil: o país do futebol

No Brasil, há três dias acabou o campeonato brasileiro de futebol. Meu time ficou em terceiro lugar. O jogo decisivo do campeonato por pontos corridos mais disputado a que assisti - tenho 30 anos - aconteceu entre o São Paulo e o Goiás, no recém-inaugurado estádio do Gama, que fica na região administrativa homônima, aqui em Brasília. Alguns dias antes do jogo, quando um colega, em sala de aula, comentou que o ingresso custaria 400 reais, quase um salário-mínimo, fui descobrir na Internet o porquê. Não era coisa do governador Arruda, afinal, e sim da diretoria do Goiás. Obviamente, não tinha razões nem recursos para ir ao jogo e não fui.

Acontece que, numa fatalidade daquelas em que só quem usa uma arma de fogo pode incorrer, um sargento da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) deu uma coronhada na nuca de um torcedor são-paulino. O agente do Estado, no exercício de suas funções, com o dedo no gatilho e o cão armado, baleou na cabeça o torcedor que viajara de São Paulo a Brasília e pagara o ingresso exorbitante para assistir ao jogo decisivo. Agora, ele está em estado gravíssimo no Hospital de Base, onde mataram o Tancredo Neves em 1985. Deus o livre, coitado!

Fire in the hole!

Enquanto o torcedor corre risco de morte no maior hospital público do DF, em que pacientes quase sempre agonizam por horas à espera de tratamento, a advogada do policial militar já conseguiu a liberdade provisória de seu cliente. O sargento, que em 20 anos de carreira policial militar fez quatro cursos de aperfeiçoamento no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças da PMDF - o que, presumivelmente, lhe dá ainda mais credibilidade para a consecução de suas atividades policiais - desenvolve agora apenas funções administrativas no quartel.

A televisão transmitiu a tragédia, claro. No ápice da encenação, o governador Arruda sublimou o acontecido. Ele quer é Brasília como sede da Copa do Mundo de 2014.

video


Nós, brasileiros de qualquer lugar, ainda temos muito o que aprender com os gregos sobre a democracia e sobre nós mesmos.

8 comentários:

Lelê Teles disse...

Bom, o policial agiu mal, mas o rapaz, esse arruaceiro, também não colaborou, né Grossi?
Esse babaca estava jogando pedra e procurando briga na porta do estádio, se vc reparar bem, na hora da aobrdagem dele passa um homem com uma criança, quer dizer em um estádio onde vão famílias, crianças, mulheres, também vão esse muleques arruaceiros para jogar pedra e dar porrada nos outros. O policial não quis matá-lo, a arma deisparou. Já o jovem estava louco pra sangrar alguém!

fff disse...

Mirem-se no exemplo.

Marcelo Grossi disse...

Não tenho muita simpatia por torcidas organizadas e seus integrantes, Lelê. Até porque sua ação transcende o futebol enquanto mero evento esportivo. A torcida organizada é uma facção criminosa que se impõe contra outras torcidas organizadas, às vezes até em um mesmo time.

As rivalidades entre times também são maximizadas pelas torcidas organizadas e seus viris torcedores, que exacerbam o ethos guerreiro em combates físicos, com ou sem armas de fogo.

A diferença, para além das obviedades sobre torcidas, é que a ação do policial militar que atirou no torcedor - que atirara pedras contra a Polícia e torcedores rivais - é a ação de um agente do Estado que personifica um corporação. Hoje, a PMDF, com seus salários altos e educação continuada, é achincalhada por esse átimo que resultou em tragédia.

Marcelo Grossi disse...

fff, mirar-nos em que exemplo?

Marcelo Grossi disse...

A Grécia continua em chamas.

No entanto, aqui no Brasil, o torcedor são-paulino baleado no Gama, no domingo passado, morreu ontem. Segundo o laudo preliminar, devido à coronhada recebida. O tiro e o sangue derramado, então, foram em vão. O que o matou foi mesmo a animalidade do sargento da PMDF.

E por falar em PM, o policial militar do Rio de Janeiro acusado de fuzilar uma criança de três anos e onze meses, colocando em risco também a vida de sua mãe e de seu irmão mais velho, foi condenado por lesão corporal pelo 2º Tribunal do Júri. Ouçam o desabafo do pai para precisar sua impotência ante à Lei.

E, Lelê, deixa de ser reacionário, velho!

Blog do Maia disse...

essa do "segue-me" eu não sabia. genial. hoje, se não tivesse tanto asfalto...

Blog do Maia disse...

quanto ao caso do policial, ainda teve médico cara de pau que tentou salvar a pele do PM, dizendo que o ferimento foi causado apenas pela coronhada. humff! quem viu a cena em slow motion pôde perceber que a coronha bateu do pescoço para baixo, quase nas costas. depois veio a pericia e desmentiu.

Marcelo Grossi disse...

Hoje, o Cabo assassino foi expulso da PMERJ.

"Demorou para bailar", como dizia o Renatinho Menguele, do CESO.